Durante décadas, a proeminência do papel da Rede Globo nos assuntos políticos do Brasil foi um fato evidente. Denunciado principalmente pela esquerda, encontrava respaldo em declarações de fácil acesso dos próprios responsáveis pela emissora.
Em editorial em 1984, Roberto Marinho afirmava, com todas as letras, o apoio das Organizações Globo ao golpe de 1964. Enquanto contava com os favores do regime, podia dizer “nos meus comunistas, mando eu”. Apenas em 2013, dez anos após a morte de Marinho, foi publicado novo editorial, na qual a Globo se retratava do apoio de então.
José Bonifácio Sobrinho, o Boni, diretor da Globo, admitiu, a respeito do debate presidencial de 1989, que: “todo aquele debate foi [produzido] – não o conteúdo, o conteúdo era do Collor mesmo -, mas a parte formal nós é que fizemos”. Um debate editado e forjado para favorecer uma das candidaturas ao cargo máximo do Poder Executivo nacional.
Apesar de ser alvo prioritário da esquerda há anos, o papel desproporcional que a Globo ocupava em nosso país só foi denunciado de forma clara nas chamadas “jornadas de junho”, em 2013. Na ocasião, jornalistas da Globo foram hostilizados, e a campeã do jornalismo nacional ouviu ressoar o grito “A Globo mente!” Em 2016, opositores do impeachment da presidente Dilma Rousseff também fizeram ecoar críticas à emissora. Chegamos então a 2022, quando, pelas circunstâncias políticas, a esquerda parece ter feito as pazes com a “mentirosa” emissora e a “mídia golpista”, enquanto a direita a declarou inimiga mortal. Há, portanto, uma relação ambivalente na vida nacional com a rede de televisão número um em audiência.
O tremendo poder da Globo, manifesto de forma escancarada na política nacional, também foi usado e abusado para ferir valores caros a nosso povo. Pelo menos desde os anos 70, a Rede Globo encampa uma verdadeira cruzada contra a família brasileira, notabilizando-se como a grande promotora do divórcio no país. Desde então, do aborto às drogas, passando pela liberação sexual e todos os consectários do grito “é proibido proibir”, não há agenda contrária à lei natural que não tenha sido abraçada pela elite progressista formada pela “beautiful people” do projaquistão.
A situação piorou em anos mais recentes. Produções louváveis, como “Hoje é Dia de Maria”, “Sítio do Picapau Amarelo”, “Auto da Compadecida” e a “A Casa das Sete Mulheres”, viraram coisa do passado. A Rede Globo avançou na marcha da insensatez das oligarquias internacionais: de um lado, associando o mal e a violência à família, à pátria, à religião e aos valores cristãos e tradicionais, vistos como opressivos e retrógrados; de outro, disseminando, por meio de “reality shows”, novelas, versões caricaturadas da história nacional, jornalismo enviesado e “heróis que morrem de overdose”, o veneno dos antivalores “cosmopolitas” e “humanistas”, supostamente conectados com o movimento de inexorável progresso da humanidade.
Infelizmente, essa atitude não é monopólio da Rede Globo. Tornaram-se comuns para os brasileiros, nos principais canais da TV aberta, a hipersensualização em programas de auditório, discussões sobre vida íntima de celebridades e programas de fim de semana dedicados quase que exclusivamente a sorteios de prêmios a pessoas que adquiriram títulos de capitalização. Tudo isso salpicado por teleevangelistas da prosperidade ou por programas que aludem a uma religiosidade pautada ora pelo medo, ora pela ganância. Disso se seguem, diante da opinião pública, os processos de engenharia social para “desconstruir” as bases sólidas que constituem uma sociedade vitalmente cristã e que poderiam conter propensões sociais criminosas.
Quando se deparam com as consequências da dissolução dos laços familiares e dos valores tradicionais, como o aumento da criminalidade e os avanços da sensualização sobre todas as esferas da vida, a reação das emissoras de televisão é ainda pior. Alguns optam por explorar o desejo de justiça do povo, transformando-o em ódio e em exaltação da violência em programas de sensacionalismo policial. Outros, de forma mais sutil, despejam opiniões de celebridades como se fossem pareceres de grandes autoridades intelectuais e sugerem respostas pusilânimes, do estilo “a maldade está na cabeça de cada um”. Quando tudo isso falha, tornam-se mais moralistas que os piores religiosos, carregando as tintas no rigorismo da cultura do cancelamento, do politicamente correto e da militância política raivosa, que sufoca vozes dissonantes e qualquer esperança de lucidez.
Nós, da Comunhão Popular, não somos ambivalentes sobre o estado deletério da televisão nacional. Como disse Gustavo Corção, “civilizar-se é espiritualizar-se”. Não nos importa que estejam aliados à direita, à esquerda ou a qualquer governo de plantão. O ataque aos valores que nos são tão caros impede o florescimento de uma verdadeira “civilização do amor”, como o desejava Paulo VI. Faz erodir os vínculos entre irmãos e concidadãos, não sendo possível qualquer forma de unidade e comunidade sonhada. Denunciamos essa situação intolerável e estamos dispostos a discutir novas saídas para o brasileiro ter o conteúdo televisivo que realmente merece.
Sob Deus e com os pobres,
A Comunhão Popular